Entenda como princípios de neurociência têm sido usados para criar espaços que promovem bem-estar mental e físico, influenciando emoções e comportamentos
A paciente chegou ao consultório da cardiologista gaúcha Ivana Dorneles Teixeira com uma queixa muito específica: o coração disparava durante a noite. O Holter, exame usado para avaliar os batimentos cardíacos por 24 horas, confirmou a arritmia noturna. No entanto, um estudo eletrofisiológico posterior mostrou que não havia nenhuma doença física associada à palpitação. A investigação precisava tomar outro rumo.
“Entendi que o maior problema dela era o sono”, diz Ivana, que também se dedica à medicina de estilo de vida. O diagnóstico veio de uma consulta mais detalhada, na qual a cardiologista perguntou sobre as condições ambientais do quarto de dormir da paciente. “O blackout não fechava totalmente e uma fresta de luz entrava pela janela”, lembra ela. Além disso, o cômodo era quente demais. Feitos os ajustes de iluminação e temperatura, o Holter foi repetido. “As arritmias haviam reduzido em mais de 50%”, afirma a médica.
“Esse contexto todo vem de milênios atrás, quando morávamos nas cavernas e precisávamos tanto de um ambiente mais escuro, para produzir melatonina, quando de um lugar mais fresco, para o cortisol baixar”, diz ela. Esse é um exemplo de questão abordada pela neuroarquitetura, área que tem ganhado espaço nos tempos modernos ao revelar o poder do ambiente construído no despertar das emoções e, por tabela, na conquista (e manutenção) da saúde e do bem-estar.
“Se a influência do ambiente era evidente no comportamento das pessoas, a neuroarquitetura agrega estudos de neurociência para mapear quais áreas do cérebro são acionadas nessa relação, quando isso acontece e quais os subsídios para mensurar esses efeitos”, afirma a arquiteta e designer de interiores paulista Martha D’Almeida.
Com uma experiência de doze anos em pesquisa de mercado e comportamento do consumidor e integrante da NeuroArq (Academia Brasileira de Neuroarquitetura), empresa brasileira fundada em 2019 com o objetivo de unir educação e prática na área, Martha desenvolveu uma metodologia de trabalho para atender seus clientes. Ela envolve não apenas expor a interrelação profunda entre espaço e usuário, mas também propõe uma simbiose entre seu conhecimento em neuroarquitetura com as percepções sensoriais da pessoa, respeitando especialmente as memórias individuais que brotam ao longo do processo.
Para compor um ambiente, além da iluminação e da temperatura, a arquiteta sonda aspectos como formas, cores, sons e aromas, sempre relacionando esses pontos à vivência e à cultura do cliente. “Enquanto o branco costuma remeter à pureza e à paz no Ocidente, é uma cor comumente associada à morte no Oriente”, diz. Ao mesmo tempo, se a pessoa passou meses num hospital, talvez o branco não pareça nada acolhedor, seja em que lado do mundo ela estiver. Pelas pesquisas da neuroarquitetura, formas pontiagudas tendem a passar a sensação de instabilidade, dor e agressividade. “Isso porque nossos ancestrais lutavam com armas pontiagudas, que machucavam, o que traz uma memória biológica nesse sentido”, afirma Martha. Curvas suaves tendem a ajudar o cérebro a ver o espaço como seguro, assim como materiais que remetam à natureza.
A biofilia, aliás, é figura mais que presente entre os que estudam e praticam a neuroarquitetura. Trata-se da ligação inata que temos com a natureza e a necessidade de cultivar essa ligação pensando na nossa saúde física e mental. Essa conexão pode ser feita por meio de plantas, água, luz natural, madeira e, na mesma vibe, pela inclusão de pets à família.
Hospitais que acolhem pacientes crônicos, por exemplo, já perceberam que o tratamento costuma avançar para melhores desfechos se o quarto tem vista para a natureza. Mas, novamente, é importante entender se, na história de vida de quem deseja fazer a reforma de um ambiente, a natureza de fato calou à alma ou causou algum tipo de incômodo. Fazer uma avaliação após a implementação do projeto está no script para validar o processo e mensurar benefícios.
Combatendo o caos
A organização do espaço é outro ponto considerado essencial à neuroarquitetura. Ruídos ou interrupções constantes, superlotação, dificuldade em encontrar privacidade e silêncio podem causar mais do que irritação momentânea. Estudos mostram que ansiedade e depressão estão muitas vezes associadas a um quadro que remete mais ao caos do que à serenidade.
Eis um desafio para quem mora em apartamentos compactos do tipo estúdio, nos quais sala, quarto e cozinha estão integrados, sendo o banheiro o único cômodo separado por parede divisória. Dados de maio de 2026 do Secovi (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais) de São Paulo mostram que apartamentos entre 30 m² e 45 m² já representam a maior parte dos lançamentos (52%) e vendas na capital (64%).
O casal Julia Colombo e Pedro Sousa viveu sob o mesmo teto de 24 m2 por um ano e sentiu a dor e a delícia de uma planta aberta compacta. A vantagem seria o preço mais viável do imóvel e do condomínio e, no caso, a vista privilegiada do apartamento em si, que ajudava a ampliar o horizonte. Mas não ter um dormitório separado atrapalhava a individualidade. “O principal ponto de ser uma casa 100% integrada é a restrição na rotina de cada um”, afirma Julia, que é coordenadora de marketing e passava boa parte do seu tempo em reuniões infindáveis de home office sem um espaço isolado para isso, o que estressava ambos.
O lazer também não podia ser individualizado. “Se um queria ver TV, os dois tinham de assistir juntos, porque não dava para um ver TV e o outro ouvir música”, diz ela. “A gente tinha de ceder para os dois fazerem basicamente as mesmas coisas.” O casal hoje mora em um apartamento alugado de 60 m2 em São Paulo, o que aliviou bem as tensões do cotidiano e inclusive favoreceu o social, já que é possível, por exemplo, fechar a porta do quarto quando chegam as visitas. O cochilo regado a silêncio também foi preservado.
A preservação do sono, aliás, é uma das prioridades nessas mudanças domésticas. “O sono é um dos pilares fundamentais da medicina do estilo de vida”, enfatiza a cardiologista Ivana Dorneles Teixeira. “Sem sono eu não consigo ter um bom exercício, sem sono eu não aproveito minha alimentação adequadamente, sem sono eu não gerencio o meu estresse, que é o que mais está pegando atualmente.”
Neuroarquitetos não condenam a planta aberta, e sim sugerem alternativas para criar pequenas separações de acordo com o momento e a atividade desempenhada pelos moradores, como divisórias vazadas, pisos diferentes, nichos com recuo de parede e móveis que marquem zonas distintas.
Afinal, foi uma planta aberta monumental que inspirou a criação da neuroarquitetura. Nos anos 1950, o médico americano Jonas Salk, criador da primeira vacina antipólio, percebeu que sua criatividade turbinava quando ele visitava a Basílica de São Franciso de Assis, na Itália. A luz natural, promovida pelas grandes janelas de vidro que iluminam os afrescos de Giotto, em conexão com a natureza ao redor lhe proporcionavam insights científicos que ele não tinha quando afundado na penumbra de seus antigos laboratórios.
Com esse cenário em mente, Salk convidou o arquiteto estoniano Louis Isadore Kahn para projetar a sede do Instituto Salk em La Jolla, na Califórnia. Inaugurado em 1962, o complexo foi desenhado com laboratórios flexíveis banhados por luz natural que ladeiam um grandioso pátio de mármore travertino, voltado para o Oceano Pacífico. Os materiais de construção foram os mais simples, resistentes, duráveis e isentos de manutenção possível. O arquiteto, por exemplo, optou por usar teca, madeira nobre de altíssima qualidade e durabilidade, nas torres e janelas, mas quis manter seu aspecto natural, instruindo para que nenhum selante ou verniz fosse aplicado à madeira. O projeto une estética, contemplação e estímulo à atividade cerebral e é considerado o marco zero dos conceitos da neuroarquitetura.




